Carta de Intenção — Paulo Pinhal

Carta de Intenção — Paulo Pinhal

A minha trajetória de mais de quatro décadas na Arquitetura e Urbanismo tem sido guiada pela convicção de que a nossa disciplina é, antes de tudo, uma prática cívica, cultural e de preservação da memória. 

Como arquiteto formado em 1979 e atuante na região Sudeste, especificamente em Mogi das Cruzes (SP), construí minha carreira na intersecção entre o projeto, o ensino, a gestão cultural e a defesa intransigente do patrimônio histórico. Essa vivência fora do eixo central da capital paulista me permitiu enxergar a arquitetura como uma ferramenta vital para o resgate da identidade local e para a democratização do acesso à cidade.

Minha relação com a cultura e as práticas territoriais se materializa de forma profunda na idealização e curadoria do CECAP (Centro Cultural Antonio do Pinhal). Em 2006, restaurei a casa que pertenceu aos meus avós, uma edificação do século XIX, e a transformei em um vibrante polo cultural que, ao longo de 13 anos de funcionamento, recebeu mais de 10.000 pessoas para exposições, cursos e atividades comunitárias. Essa experiência de autogestão cultural soma-se à minha militância pelo patrimônio, iniciada ainda na década de 1980, quando um concurso de fotografia junto ao IPHAN impulsionou o restauro da Igreja do Carmo, e consolidada na luta pelo tombamento do Casarão do Chá, símbolo da imigração japonesa.

Compreendo a 15ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (BIAsp) como a mais importante plataforma pública e formativa da nossa área. O eixo “Arquitetura, Cultura e Soberania” é extremamente oportuno e dialoga diretamente com minha visão de mundo. Entendo que a Soberania Cultural exige o reconhecimento das nossas raízes, do nosso patrimônio edificado e das histórias que as nossas cidades contam. Produzir pensamento a partir do Brasil significa valorizar a memória não como nostalgia, mas como base para requalificações urbanas contemporâneas, um princípio que apliquei tanto em propostas urbanísticas cívicas (como as praças e o Mercadão de Mogi) quanto nas disciplinas de Técnica Retrospectiva e Requalificação Urbana que ministrei como professor e coordenador universitário.

Minha contribuição para o Comitê Curatorial da 15ª BIAsp será trazer o peso dessa dupla perspectiva: a do educador e a do articulador de políticas de memória no território. Quero colaborar para que a Bienal olhe para além das metrópoles centrais, integrando o interior e as franjas urbanas no debate nacional, garantindo que o patrimônio e a requalificação urbana sejam tratados como partes indissociáveis da sustentabilidade e da justiça espacial.

Por fim, toda a minha trajetória foi forjada no trabalho coletivo e na articulação institucional. Tive a honra de ser Presidente do IAB – Núcleo Mogi das Cruzes em 1998, presidir a Associação dos Engenheiros e Arquitetos (AEAMC), liderar o Colégio de Arquitetos (CDA) na capacitação em preservação, e atuar ativamente no Conselho Municipal de Patrimônio (COMPHAP). Nessas instâncias, aprendi que construir cultura e cidade exige escuta, negociação, complementaridade de saberes e profundo compromisso público. Estou ciente da dimensão do trabalho curatorial coletivo proposto para esta edição e coloco minha experiência, maturidade e disponibilidade a serviço deste grande projeto institucional que é a 15ª BIAsp.

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